Month: April 2013

lembrança

Umas escadas de grisalha pedra, teatro eleito da criançada e palco de muita risada e infindas brincadeiras: degraus largos alinhados e em cada um sua escolta de livré de terracota envolta em musgo cansado e velho – neles florescem desgrenhadas a cada rol de primavera sardinheiras inebriadas de cor e sol. Um alpendre onde uma glicínia airosa e ancestral se enlaça amorosa pelos corrimões e balustrada. Ao lado passa a estrada, mas na estrada não passa nada nem ninguém – a não ser um calor cego de quase verão e um ou outro zangão vestido do mesmo veludo negro que as velhas, ou as noites sem lua cheia; e por vezes passa uma brisa meia que se alisa pelo vale, envergonhada e decídua e incapaz. Três velhos. Uma rapariguita de tez trigueira e escura trança que ri e salta e dança e canta e declama e rodopia, embrulhada em antigas colchas de poída e traçada fazenda, e em velhos cortinados de renda – e que assim lhes enche o coração e lhes troca a paz …