the Portuguese files
Leave a Comment

a lua

 


 

Caminham lado a lado, a mulher e o rapazito. Por vezes ele saltita e rodopia, e ela olha-o e sorri como quem se lembra de outras coisas assim. Outros saltos e rodopios. Por vezes ele pára-a, diz-lhe, “olha ali! Olha, olha ali!

– “É um elefante, estás a ver? Ali a tromba, e as orelhas…

E ela olha. E vê. É uma cabeça de elefante, a tromba semi-encaracolada, o olho enorme e profundo como um espelho azul de céu, as orelhas enormes espraiadas lado a lado.

– “Fotografa, anda…

Pede-lhe ele, e ela fotografa.

– “E ali, olha, um coelho, estás a ver?

Ele mostra-lhe onde, descreve a nuvem até ela perceber qual delas ele lhe aponta, e de repente lá está, um coelho aninhado, as enormes orelhas esticadas pelo ar.

– “É um coelho espanhol, aquele.” – Diz-lhe ela. – “Tem as orelhas enormes e quebradas, como é típico da raça.

E ela imita as orelhas do coelho com as mãos espalmadas a dar a dar, uma de cada lado da cabeça. O rapaz ri. Continuam caminho, devagar. Colhe um dente-de-leão e oferece-lho: “Pensa num desejo, anda…“.

– “Pensamos juntos, então! Cada um no seu.” – Pesponde ela. E ambos fecham os olhos.

– “Já pensaste?” – Pergunta-lhe ele por fim. Ela abre os olhos.

– “Já. E tu?

– “Também.

– “Então sopramos juntos. Vamos. Um, dois, três!” E sopram.

Continuam pelo carreiro, ao longo duma velha vedação de madeira coroada por uma sebe de ciprestes cuidadosamente manicurados. No canto da sebe o rapazito descortina de súbito duas moscas.

– “Olha ali, fotografa, uma está com a outra às costas, que coisa estranha! Achas que aquela mosca está cansada, e a outra só quer ajudar?

Ela ri-se. Doze anos. Santa inocência. As moscas voam, desaparecem no calor da tarde antes de ela se chegar perto com a máquina.

– “Que coisa, voou, a carregar a outra às costas! Aquela outra mosca devia estar mesmo cansada!

– “Estavam na malandragem, marotas das moscas, e vais tu e interrompe-las assim!” – Diz-lhe ela a sorrir.

Ele pára e volta-se para ela, os olhitos a brilharem como estrelas, e de repente desata a rir à gargalhada, gargalhadas gostosas e cristalinas como ela há muito não ouvia.
– “E agora vai dizer à tua mãe que eu te ensino estas coisas!

E ele ri-se ainda mais.

O dia está quente. Sentam-se no meio da erva alta, ambos finalmente calados, e ele deita-se de costas e continua a procurar sentido nas nuvens. A mulher olha-o; parece-lhe cansado, e ela pergunta-se se será talvez melhor abreviar o passeio e cortarem caminho de retorno a casa.

– “Olha lá ali!” – Grita-lhe ele, de repente excitado – “É tal e qual um cavalo, como aquele ali da quinta! Fotografa, anda!

E ela fotografa, fotografa sempre. Porque ele lhe pede. Porque a alegria e a curiosidade e o entusiasmo dele são contagiantes. Mais do que isso, são como uma droga da qual há muito lhe faltava uma dose.

É um daqueles fins de tarde em que a lua já se encontra de encontro ao azul, feito um fantasma de fumo branco. Se a olhar muito fixamente, diz-se de si para si, há-de parecer que o fumo e as sombras se mexem… E então ela lembra-se. Lembra-se de como havia dias tal como este, plácidos e transparentes, dias em que ia a tarde apenas a meio quando uma lua assim, enorme e quase transparente de tão pálida, se juntava ao sol no de súbito diáfano azul do céu – e juntos dançavam então a mesma eterna valsa inebriada de ouro e prata.

Lembra-se de como os dias sempre passam tão lentos no verão, agora como então, tão lentos e longos que nem o sol nem o vento se lembram mais do que é, como é correr – pendura-se um pelo azul espelhado, e espraia-se o outro pelos vales até quase desvanecer.

Lembra-se de como costumava passar os dias escondida pelo meio do milho paínço ondulante sob aquelas quase brisas permanentes e perfumadas, a olhar o céu e as nuvens itinerantes e a adivinhar-lhes os contornos. E lembra-se de repente de um outro verão, aquele em que passara os seus dias deitada de costas no meio de erva igualmente alta, a chupar os caules amargos das campânulas amarelas, e a olhar o céu.

Conta-lhe. Conta-lhe de como as pessoas não acreditavam mas acreditavam, ainda assim, vá-se lá perceber destas coisas!, de como acreditavam e confiavam, confiavam mas desconfiavam. Dos porquês e os quês. Das coisas, tantas, tantas e tão fantásticas, que se diziam, que se podem por um homem a voar para a lua, ó comadre, pois então não se há-de poder ver o foguetão também? Era só ver! E imaginem só o tamanho tamanhão que a coisa não há de ter mesmo, para levar toda a gasolina que não hão-de precisar de levar com eles, para ir e voltar… Que não há-de ser meia dúzia de litros, como a motoreta do meu Zé…

Chegados finalmente a casa, ouve-o excitado a contar ao pai e à mãe a história que ela lhe contara, e é a vez dela de sorrir.

– “Vocês nem acreditam, ela era da idade da Alissa quando os americanos foram à lua pela primeira vez, não eras, conta-lhes, anda, e vai e passou o verão todo à espera de ver o foguetão a brilhar no céu porque no jornal diziam que era possível porque era feito de metal e ia reflectir a luz do sol tal como as estrelas, e as pessoas na aldeia dela acreditavam nestas coisas todas estranhas naquele tempo porque não se sabia o que se sabe hoje e ela lembra-se de ver tudo na televisão… Estás a ouvir, Alissa…? Lembras-te, não lembras, anda, conta-lhes, conta à Alissa que viste a primeira viagem à lua, anda… Vou fazer um desenho!

O rapazito sai da sala a correr e, ao passar por ela especada feliz encostada à ombreira da porta, puxa-lhe pela mão até que ela se verga, erva demasiado alta, até ficar à altura dele, e ele dá-lhe na cara um beijito envergonhado e fugidio, breve, leve, súbito, redenção.

 

© Nina Light cc-by-nc-nd


image: © Nina Light
 

So, what do you think? I'd love to know. Shall we start a conversation?

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s