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a lua

    Caminham lado a lado, a mulher e o rapazito. Por vezes ele saltita e rodopia, e ela olha-o e sorri como quem se lembra de outras coisas assim. Outros saltos e rodopios. Por vezes ele pára-a, diz-lhe, “olha ali! Olha, olha ali!“ – “É um elefante, estás a ver? Ali a tromba, e as orelhas…“ E ela olha. E vê. É uma cabeça de elefante, a tromba semi-encaracolada, o olho enorme e profundo como um espelho azul de céu, as orelhas enormes espraiadas lado a lado.

vagas

Tantas que são as palavras todas que rimam com a rima única que é amor: conto-as, pelos dedos desfiados todos aqueles fins contados, que se desfiam como as águas e se abrem como as mágoas dos meus olhos palavras tantas, aos molhos como se não mais que flores fossem, ou ávidos dedos que leves rocem na familiaridade da tua pele na brancura exangue do meu papel. Conto-as. Todas quantas foram e vão dos meus lábios à tua mão, do calor à apenas dura dor: as todas, palavras tantas, que levarei rente na memória palavras amargas vagas salgado mar que tu indiferente assim assentas pelo livro da nossa história.   © Nina Light

águas

  há dias assim feitos de um cansaço baço e com sabor a bafio, dias em que as horas são rio grossas e turvas e sem fim. há dias assim. há dias de manhãs sem relento e as mãos sem assento, e o olhar a quedar-se quebrado por tardes infindas de inúteis romarias onde tudo é passado. há dias assim, águas destino e fado sem fundo e sem fim.   © Nina Light CC-BY-NC-ND  

lembrança

Umas escadas de grisalha pedra, teatro eleito da criançada e palco de muita risada e infindas brincadeiras: degraus largos alinhados e em cada um sua escolta de livré de terracota envolta em musgo cansado e velho – neles florescem desgrenhadas a cada rol de primavera sardinheiras inebriadas de cor e sol. Um alpendre onde uma glicínia airosa e ancestral se enlaça amorosa pelos corrimões e balustrada. Ao lado passa a estrada, mas na estrada não passa nada nem ninguém – a não ser um calor cego de quase verão e um ou outro zangão vestido do mesmo veludo negro que as velhas, ou as noites sem lua cheia; e por vezes passa uma brisa meia que se alisa pelo vale, envergonhada e decídua e incapaz. Três velhos. Uma rapariguita de tez trigueira e escura trança que ri e salta e dança e canta e declama e rodopia, embrulhada em antigas colchas de poída e traçada fazenda, e em velhos cortinados de renda – e que assim lhes enche o coração e lhes troca a paz …

eco

De onde vêm as palavras e para onde vão? Por que esquinas se roçam, por que caminhos se perdem? Por onde se quedam e por onde se rendem, por onde se prendem e por onde se acham escravas incólumes vergastas impunes, trevas pirilampos cardumes núvens céu? Porque são elas portas tais, assim, portais e chão e pão e enlace e navalha? Porque calha as palavras serem mão e serem pedra, eco perfume sortilégio e gume, mágoa suspiro risada e perderem-se em água e onda e nada? E porque sempre regressam como se fruto maduro ao ventre verde ou como vento suão e voraz quando já nada se pode, mesmo quando não se querem mais? Morrerão alguma vez as palavras como morrem os sonhos e se fecham os lábios e as mãos, e se apagam finalmente os dias os olhos os ecos as vozes?   © Nina Light CC-BY-NC-ND image credit: “L’Umanitá contro el male”, Gaetano Cellini (1908), photo by Massimo Cuomo found @ eccelenze-italiane.tmblr.com